Todos nós sabemos que os jornalistas nunca olham de frente para a câmera quando dizem a verdade. Entretanto, poucos analisaram e se valeram da questão da Angularidade Testemunhal tão bem quanto Caco Barcellos. O repórter da TV Globo ficou famoso por ter escrito o primeiro livro angulado da história humana, Cacofilia: memórias minhas ou nossas? Acho que vale lembrar como tudo aconteceu.
Trecho da famosa entrevista de Caco Barcellos ao Pasquim 21, em 12/03/2004
Ziraldo: Mas a publicação de Caco: memórias minhas ou nossas? também marcou, é um livro recente mas marcou, ou eu estou falando merda?
Caco: Não, é isso, sim. Vou te contar a história. Eu tinha que escrever o livro, certo? Minha autobiografia. Ai um dia eu estava conversando com uma menina estagiária, muito burra por sinal, e ela não estava só querendo ‘informação’. Ela queria uma relação humana…E eu disse pra mim: Caco, vira a cabeça pro lado, do jeito que os grandes jornalistas fazem quando dizem o que sentem fora do ar. E de repente, sem pensar eu resolvi falar algo que não era só verdade, era a verdade com um pouco de carinho também, um pouco de compaixão. Assim eu virei a cabeça pro lado, assim na diagonal dela, e falei o que tinha de falar… E Bang! Isso foi quando? 99, 2000, não lembro. Então quando eu escrevia minhas memórias eu relia e não sentia aquele sentimento autêntico, aquela forma humana de ver as coisas.
Jaguar: Você achou que estava meio frio. Geladaço!
Caco: Total! Eu pensei: Gente, tá consagrado! Quando o jornalista fala a verdade, e não a Verdade, a verdade fica mais Verdade que a Verdade. Então eu resolvi escrever minhas memórias na diagonal do leitor, porque é na diagonal que a verdade verdadeira ‘acontece’. Diagonal = verdade + humanidade. Pensei: por que não deixar o texto na diagonal? Por que não olhar na diagonal, pombas, longe das ‘verdades acadêmicas’, das ‘certezas ultrapassadas’? (Caco pede que os editores coloquem aspas nos pontos de interrogação. Há uma discussão. Caco diz que fez perguntas mas não Perguntas, é mais uma afirmação de vida, uma Pergunta Sócio-Consciente. Ele debatem sobre o ?, sobre !. Resolvem seguir a entrevista.)
Ziraldo: E a reação da editora?
Caco: Sim… Liguei pra eles e disse ao Sampaio (Jorge André Sampaio, vice-presidente da Editora Record): vocês têm que publicar o texto virado! O texto já estava na gráfica, vocês imaginam. Eu disse: eu quero o texto virado, meio de lado, tipo quando… E ele desligou na minha cara. Depois a gente riu. (Risos) Ele achou que era trote, o Sampaio. (Ziraldo balbucia algo incompreensível) Pois é, eu expliquei e tal e eles entenderam. A única coisa que eles pediram foi que o nome deles não aparecesse no livro, nem o nome dos editores coisa. Sairia com a capa toda branca e só com Caco Barcellos e o nome do livro, mais nada. E que eles negariam até morte qualquer ligação com o livro. Segurei a bomba e disse simbora.
Ziraldo e Jaguar, juntos, ao mesmo tempo: Mas não foi a primeira vez que você fez algo no gênero.
Caco: Nada. Em 91 ou 92, não sei, eu fiz uma reportagem para a TV Globo de costas para a câmera. Eu imaginava na época que isso era a afirmação da vida, um questionamento da relação ultrassóbria do jornalismo. Estava enganado. Eu era na verdade o mesmo, só que o contrário. Era a antítese do que odiava, mas na prática eu era tão reto quanto eles. Mais tarde, acho que estamos falando de 96, eu fiz outra reportagem, agora sobre o garimpo de Vargens-MT. Essa eu gravei de lado para a câmera.

Trecho do capítulo Menos Jornalismo e mais Gentilismo
Ziraldo, através de um toca-fitas que ele deixou na sala programado para fazer esta pergunta de 5 em 5 minutos: Era mais uma experimentação…
Caco: Era mais uma experimentação, claro. Ora, era o que me fascinada! Só que essa nunca foi pro ar. Eu aliás quase fui mandado embora da Globo. Quem me salvou na época foi o Toninho…
Jaguar: Toninho Silvestre, da Revista Cruzeiro, e que casou com um travesti e foi morrer de cirrose lá na Bahia?
Caco: (Silêncio) Não, acho que esse é outro Toninho, Jaguar. Falo do Toninho Pereira, diretor da Globo. Mas tudo bem, esquece. A reportagem essa que eu inovei foi no garimpo, e era o seguinte: queria mostrar a relação de ouvinte. Eu não era o cara de frente, que falava olhando para o telespectador. Não era o Hitler com o microfone na mão dizendo para o cara em casa: aconteceu isso, aconteceu aquilo. Por que, eu me perguntava, aconteceu mesmo? Será que aconteceu? Se aconteceu, por que eu estou tão triste? Não queria isso. Então fiquei de lado. O telespectador só via minha orelha. Eu era o cara de lado, com o ouvido pronto para escutar, aprender com o telespectador. E apesar disso, ainda não era o caminho…
Jaguar: Você achava que não era…
Caco: Não!, não era o caso de virar de costas, virar o ouvido para o telespectador, era o ângulo, onde se escondem as verdades mais profundas. O ângulo! Entende, Jaguar? Era isso que me havia levado ao jornalismo.

Trecho do polêmico capítulo '100% Perspectiva!', também da autobiografia
Ziraldo: Você até escreveu o livro-reportagem bom pra cacete, e que ganhou o Jabuti de 2001, Rio 45 graus: nem na Barra nem na Favela, vê se eu tô na esquina
Caco: Ganhei o Jabuti com ele, sim. Esse livro foi uma antecipação do que eu fiz nas minhas memórias. O texto do livro não foi publicado no ângulo de 45 graus, mas foi pensado, Ziraldo, em 45 graus. Entende? Porque o extremo da favela em contraste com a Zona Sul formam 90 graus. Mais isso é fascista e frio.
Jaguar: Porra, geladaço!
Caco: Muito, demais. Então…eu pensei a reportagem como o meio termo humano, entre a falência da elite da Barra da Tijuca e a mortandade da favela, no meio dos 90 graus. 45. Pra mim, Ziraldo, isso é jornalismo. (Caco pede aspas só para o ‘j’, no início de jornalismo; 3 exclamações para ‘ornalis’ e para o ‘mo’ ele pedia alguma coisa quando o Jaguar e o Ziraldo caem bêbados no chão e a entrevista acaba.)