A Tragédia de Alex J. Murphy

No Japão eles se dedicam ao curioso mercado do carbono derivado de ossos humanos. Os produtores de pólvora trabalham na fabricação de um novo explosivo muito mais mortífero que os atuais. O novo e terrível componente usa carbono extraído de ossos humanos como o principal ingrediente, já que ele tem a propriedade de absorver rapidamente gases e líquidos. Por esta razão, inúmeros comerciantes japoneses estão vasculhando os campos de batalha da Manchuria atrás dos cadáveres que cobrem aqueles campos. Cheios de entusiasmo, por todo lado naquelas terras eles estão desenterrando pilhas de esqueletos. Cem tsin (7 Kg) de ossos humanos rendem 92 kopek.

Glória às cinzas irredentas que retornam à vida através da artilharia japonesa. Meus amigos, aplaudamos esse nobre exemplo de engenhosa violência. Rápido! Para limpar as ruas, deixem que os cadáveres de seus amados e venerados sejam, sem demora, enfiados nas gargantas dos canhões! [Guerra sola igiene del mondo]

I.

Embora F.T. Marinetti tenha imaginado, em 1910,[1] que o «homem ampliado», o homem unido à máquina, produto de seu Futurismo, jamais fosse experimentar a tragédia, a lenda do policial Alex J. Murphy nos mostra o contrário; o que não é, sabe-se bem, nenhuma surpresa, dado que o Futurismo marinettiano esteve sempre embebido de um romantismo trágico-bélico-lírico que não teria palco senão o da velha natureza humana tão rechaçada por ele próprio.

Se Nietzsche nos passa a impressão de que escrevia de pau duro, Marinetti é uma ereção alfabetizada. Portanto, inútil esperar coerência da parte menos hemo-irrigada do corpo do italiano. Na ânsia de destruir o decrépito homem romântico Marinetti ligou o herísmo à tecnologia. O seu Futurismo, a prometida facada final no coração do Don Juan, acabou por unir-se à máquina. O que Marinetti imaginou foi só «Humanismo Futurista».

Após sua participação na I Guerra Mundial, Ernst Jünger se convenceu de que o futuro do indivíduo era a sua submissão à tecnologia até o ponto da extinção, transferindo tudo o que o homem tem para a máquina.[2] Tanto a «passividade heróica perante a technik» de Jünger como o «homem-ampliado» de Marinetti são formas de um pastiche de heroísmo misturado com masoquismo e deslumbre que, embora vulgar e simplório, tem lastro pra caralho.

Longe de ser exclusividade de Marinetti e Jünger, o «Humanismo Futurista» — e o nome não é deles, é meu — é o fundamento do homem moderno, e pode ser observado num incontrolável oba-oba contemporâneo em relação à vontade de unir-se integralmente com eficiência da máquina, dado que para esse homem maquino-deslumbrado, a tecnologia é a única forma de suplantar a contingência humana. A planificação, e sua promessa de jamais falhar, é, e sempre foi, tentadora. Mas a tragédia de Murphy nos apresenta algumas questões interessantes sobre o tema.

II.

O personagem Robocop é a exata formação do «Humanismo Futurista»: é a tecnologia cobrindo-se do trágico e do romântico. O policial Alex J. Murphy se deu mal — deve ser do conhecimento de todos –, e após combater um grupo de arruaceiros da pesada, foi covardemente torturado e deixado a morrer, feito um soldado japonês na Manchuria, com diversas partes de seu corpo irreversivelmente comprometidas. E assim como os ossos dos soldados japoneses, sua carcaça remanescente é o que os manda-chuvas da empresa Omni Consumer Products, OCP, responsável pela segurança da cidade de Detroit, precisam para introduzir no mercado o conceito do policial robótico, ou Robocop: metade homem, metade máquina.

Robocop será — espera-se — o mesmo homem de sempre, apenas protegido por uma armadura de aço, retaguardado por uma prodigiosa memória computadorizada e empurrado ao extenuante trabalho por um alentante maquinário super-humano. Robocop é a manifestação das idéias futuristas de outro italiano, Vinicio Paladini, que, em 1922, em seu Manifesto da Arte Mecânica Futurista, idealizava um homem do futuro que fosse feito de aço; que nunca experimentasse a fadiga, fraqueza ou nostalgia, e que jamais sentisse tentado por sentimentos femininos.[3] Assim, o Robocop, muito além de uma simples ereção de aço, é todo um sistema conquistado, longe das trevas femininas, protegido das entropias da encantadora e bocó Mãe Natureza [...] e todos foram levados a acreditar que, ao compreender o Robocop, estariam compreendendo a própria masculinidade…[4]

III.

A Detroit do Robocop representa o caos, e onde há caos exige-se a ordem. Detroit poderia ser, caso queiramos — e eu quero –, qualquer metrópole ocidental do início do século XX, especialmente Chicago. E acima de todas Viena. Principalmente Berlin. E também Paris, mas esta sem o exagero retórico lido previamente neste mesmo texto. E é o caos instalado e a mentalidade faroéstico-fascista do slogan «se não há lei, eu sou a lei»[5] que catapultarão o homem à fantasia justiceira de 1914. Robocop é a Primeira Guerra: trágica mas humana; aliás, mais humana porque trágica, e mais trágica porque mecânica. 1914 foi idealizada como qualquer guerra, mas lutada como nenhuma. Em 1914 o romantismo casou-se com o Fosgênio, e o heroísmo uniu-se à Maschinengewehr 08.

Quando a correlação dos fatores se torna complexa demais, a adoção de um supersistema ordenador é a pedida. A aceitação do super-humano sistema cibernético para pôr fim ao caos de Detroit é semelhante à adoção do super-humano sistema bélico para pôr fim no caos europeu. O policial para acabar com todos os crimes é a guerra para acabar com todas as guerras. «Com essas armas», pensaram os cobrões da OCP, «não há criminoso humano que resista, e findará o crime em Detroit». «Com essas Vickers e esse Cloro», pensaram os cobrões da Europa, «não há conflito que resista, e findará o caos na Europa».

Entretanto é curioso notar que ambos os momentos (1914-1918 e Robocop) são convertidos em plateaux. A tragédia de Murphy chama à realidade a humanidade: a tecnologia criou algo que a supera; ela acredita controlar a tecnologia, mas tem fungando em seu cangote a morte. O poder das máquinas simplesmente aniquilou a velha guerra e todos os seus valores, como escreveu Ernst Jünger sobre a Batalha de Somme:

Aqui o cavalheirismo desapareceu para sempre. Como todos os sentimentos nobres, acabou por dar lugar ao novo ritmo da batalha e ao comando da máquina. Aqui a nova Europa se revelou em combate pela primeira vez. [6]

«E o que virá depois?», poderia se perguntar um hipotético cidadão após 1918. «Não há perigo», pensaram os cabeças da OCP, «pois assim como atrás do trêsoitão há um homem de bem, atrás do Robo há um Cop. A tecnologia do Robocop pode exterminar uma quantidade desproporcional de seres humanos em segundos, mas ela ainda é controlada pelo homem». «Não há perigo», pensaram os cabeças da Europa, «pois assim como atrás do aço havia o bom Fritz, atrás da MG08 há um representante da Kultur. A tecnologia da guerra pode exterminar uma quantidade desproporcional de seres humanos em segundos, mas ela ainda é controlada pelo homem». A mensagem de 1914/Robocop é simples: temos condições de nos matar em quantidades desproporcionais.

Robocop, por ser metade homem e metade máquina, é o primeiro susto. Controlador do homem o homem nunca foi, e é bom que se diga; acontece que a questão agora é que além disso, seus instintos assassinos estão reforçados por aço inoxidável e um gatilho infalível. A certeza de que Alex J. Murphy, o bom homem e cidadão modelo, triunfará sobre o crime se espalha pela cidade; a convicção de que Murphy protegerá a todos neutralizada o medo de que a outra metade, a tecnológica, poderia lhes impor belos paletós de madeira. A raiz humana do Robocop não poderá falhar.

Entretanto os bam-bam-bams da OCP avançam: ED-209, a máquina total, a máquina sem a metade lacrimosa. Eles acreditam na superioridade da justiça toda-máquina e toda-plano. Se a Detroit do Robocop é beligerância pré-14, e os criminosos são Entente e Aliados, numa I Guerra Mundial simbólica, a Detroit do ED-209 é Peenemünde, e os criminosos são qualquer um, numa II Guerra Mundial igualmente simbólica, representada pela carnificina autônoma.

Intermezzo:

(Metáfora alternatica: ED-209 é a technik como a espada do Rei Salomão. No momento em que a technik em sua totalidade resolve o problema, só resta ao bom sujeito o choro. Mas sempre resta o indivíduo para se manter com um pé fora da estrutura — Alex Murphy e a prostituta que se nega a ver o filho morto — totalitária da justiça plana.)

Tal qual Robocop, parcialmente máquina, venceu ED-209, a máquina total; no Dia D, os aliados, parcialmente modernos, salvaram a humanidade de Buchenwald. Até quando a idéia de autonomia científica do homem será anulada pelo próprio homem assim que se der conta que ela o destruirá ninguém sabe, o que é certo é que as fantasias de planificação humana — universalismo, globalismo, equalitarismo etc. — continuarão a se esboçar. A primeira, o Robo-comunismo-nazi-fascista, não sobreviveu por uma simples razão: era localizada. Rodeava-a uma Europa ainda lastreada em Alex J. Murphy, mesmo que parcialmente. Detroit foi salva tão-só porque Murphy, antes de se tornar parte máquina, deixara se corromper pelos sentimentalismos que todos os modernistas abominavam e caminhara pela «dirrita via», ilustrado abaixo pela capacidade do Robocop de descer escadas:

IV.

Aqui é necessário tratar de outro personagem. Anne Lewis, a antiga parceira de policiamento de Murphy, jamais o abandona à própria sorte na selva oscura. Ela tenta fazer com que o Robocop dê vazão ao homem que existe dentro dele. Há uma famosa cena em que ela o observa descansar após sua ronda diária e, olhando-o nariz a nariz, diz «Guardaci ben! Ben son, ben son Anne.» Ela passa a mão em sua testa, continua pela cabeça e toca sua nuca onde, ao sentir o aço da armadura, continua docemente «Veggio te ne lo ‘ntelleto fatto di pietra…»

Contrastando com a doçura de Anne, os intelectuais da OCP tentam a todo custo tratá-lo como pura máquina: tratam-no como um meio até a planificação total, até que cheguem ao sistema que superará o homem, o sistema sobre o homem, e se, como escreveu Nietzsche, o homem é somente um meio até o super-homem, Murphy/Robocop é somente um meio até ED-209. Murphy foi o último suspiro da retidão. Após sua morte, aí então Marinetti estará certo e findará a possibilidade de tragédia com a vitória do otimismo histérico-futurista, uma vez que histerical optimism will prevail until the world again admits the existence of tragedy, and it cannot admit the existence of tragedy until it again distinguishes between good and evil.[7]

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Voltar 1. F.T. Marinetti, The Critical Writings.

Voltar 2. Ernst Jünger, Feuer und Blut.

Voltar 3. Donatello among the Blackshirts, editado por Claudia Lazzaro.

Voltar 4. Thomas Pynchon, Gravity’s Rainbow, levemente alterado, como vocês podem perceber na página 329 da edição em paperback da Penguin.

Voltar 5. E havia uma música com esse refrão. Tosca que só ela…se não me engano era da banda de Oi! Bandeira de Combate.

Voltar 6. Ernst Jünger, In Stahlgewittern.

Voltar 7. Richard M. Weaver, Ideas Have Consequences.

3 Responses

  1. Luiz, não entendi nem metade hehehe. Mas não poderia deixar de te ler. beijocas

  2. Oi, Sarah. Tudo bem, não faz mal e não perdeu nada.
    É que eu considero Robocop, junto com Tudo por uma Esmeralda, uma das maiores obras da mente humana.
    Obrigado pela visita.
    Beijos.

  3. Guri, quanto exagero! Semana passada a melhor coisa do mundo era o segundo episódio de Indiana Jones. Mas vem cá, o italiano é do Dante…fui obrigada a chamar o google. Eu só não entendo por que o robô grita como um animal ao cair na escada. :)

    beijo.

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